Do riff inicial ao bis, supergrupo executou uma celebração que uniu técnica, emoção e nostalgia
Quem estava no Espaço Unimed na última sexta-feira, 09 de maio, saiu com a cabeça girando — e não foi só pelo riff torto de “Neurotica” (Beat, 1982), que abriu os trabalhos. Antes mesmo da primeira nota, cada veterano do Beat — banda que realiza um tributo ao repertório do King Crimson nos anos 1980, com dois membros da formação original — apareceu agradecendo a galera, um por um, como se desse check-in no coração de quem esperou décadas por esse momento.
Logo se viu que nostalgia aqui vem plugada nos 220 V. O timbre encardido deu aquela cor vintage enquanto “Neal and Jack and Me” (Beat, 1982) escorregava liso — e a plateia já sacava que a noite ia ser tour completa pelos discos oitentistas.
Quando “Heartbeat” (Beat, 1982) bateu, Steve Vai largou o primeiro solo que fez muita gente desaprender a piscar por uns segundos. A química dele com Danny Carey foi absurda: baterista e guitarrista se encaixaram como peças de Lego, principalmente no groove meio “marroquino” de “Sartori in Tangier” (Beat, 1982). E a turma original do King Crimson? Técnica de sobra e presença que envergonha banda novinha — prova viva em “Model Man” (Three of a Perfect Pair, 1984) e na pedrada industrial de “Dig Me” (mesmo álbum).
O Ato I fechou em clima de laboratório sonoro: “Industry” (Three of a Perfect Pair, 1984) pulverizou o espaço em texturas, antes de “Larks’ Tongues in Aspic (Part III)” (idem) fritar cabeças com polirritmias acrobáticas. Aí… blackout! Vinte minutos de pausa estratégica pra todo mundo buscar ar (e cerveja), enquanto os mestres provavelmente trocavam corda, pele e dimensão paralela.
Voltando para o ato II depois de uma considerável espera pela continuação, não deu outra: “Waiting Man” (Beat, 1982) puxou o Ato II com percussão tribal e baixo hipnótico. “The Sheltering Sky” (Discipline, 1981) virou trilha de viagem astral; “Sleepless” (Three of a Perfect Pair, 1984) trouxe baixo slappado que fez o chão tremer; e “Frame by Frame” (Discipline, 1981) provou que polifonia pode, sim, ser pop progressiva.
Antes de atacar “Three of a Perfect Pair”, Adrian Belew pegou a guitarra que, jura a lenda, dormia no estúdio desde 1984. Em seguida, a faixa título (1984) martelou aquele refrão que gruda tipo supercola. “Matte Kudasai” (Discipline, 1981) — balada etérea que deixou até o roadie emocionado. Na sequência, “Elephant Talk” (idem) saiu trombando sílabas e riffs, e “Indiscipline” (mesmo disco) encerrou o ato com Tony Levin e Danny Carey duelando como se compasso 5/4 fosse brincadeira de criança.
No bis, bolo primeiro, riff depois: já passava de meia noite quando a plateia puxou o famoso “Parabéns para Você” e o roadie da banda apareceu com um bolão pro aniversariante Danny Carey. Ele não perdeu a chance de devorar um pedaço usando as próprias baquetas como talheres, arrancando gargalhadas gerais. Só então veio a pedrada setentista “Red” (Red, 1974), que fez o chão tremer com aquele riff minimalista hipnótico, e a noite terminou com “Thela Hun Ginjeet” (Discipline, 1981), transformando o Espaço Unimed num ritual de funk prog punk onde ninguém conseguia ficar parado.
Se alguém ainda duvidava que esses veteranos têm lenha, agora sabe: eles não só têm lenha — trouxeram a floresta inteira e ainda tacaram fogo.
Setlist:
Ato I:
1. Neurotica
2. Neal and Jack and Me
3. Heartbeat
4. Sartori in Tangier
5. Model Man
6. Dig Me
7. Man With an Open Heart
8. Industry
9. Larks’ Tongues in Aspic (Part III)
Ato II:
10. Waiting Man
11. The Sheltering Sky
12. Sleepless
13. Frame by Frame
14. Matte Kudasai
15. Elephant Talk
16. Three of a Perfect Pair
17. Indiscipline
Bis
18. Red
19. Thela Hun Ginjeet
