O terceiro dia de Bangers Open Air foi uma verdadeira celebração do peso em suas mais variadas formas — do hardcore ao gótico, passando pelo thrash e pelo hard rock teatral. O perfil da After acompanhou de perto cinco grandes destaques do dia: logo no início, o Black Pantera incendiou o palco com sua mistura agressiva e cheia de atitude, abrindo os trabalhos com representatividade e energia de sobra. Depois, veio o clima sombrio e melancólico do Paradise Lost, seguido pelo ataque direto e furioso do lendário Kerry King, o desfile de clássicos do W.A.S.P. com toda sua presença de palco, e, fechando a noite, o espetáculo épico do Avantasia, que transformou o festival em um verdadeiro conto de fantasia musical.
Black Pantera — Fúria, atitude e representatividade no Sun Stage do Bangers Open Air
Abrindo os trabalhos do último dia de Bangers Open Air no Sun Stage, o Black Pantera entregou um show eletrizante, repleto de peso, urgência e mensagem. Com cada vez mais destaque no Brasil e no exterior, o trio mineiro mostrou por que é um dos nomes mais relevantes da cena atual, levantando o público logo nas primeiras horas do festival.
O setlist foi um soco atrás do outro: “Candeia”, “Provérbios” e “Padrão é o caralho” deram o tom da apresentação com riffs cortantes e letras afiadas. A interação com o público foi constante, e o vocalista/baxista Chaene da Gama não economizou nas provocações e incentivos à participação.
Um dos momentos mais simbólicos rolou durante “Sem Anistia”, que ganhou a versão “Só as mina” — uma chamada para que as mulheres ocupassem o centro do mosh, em uma roda só delas, com potência e representatividade. Já em “Revolução é o caos”, a banda convocou um wall of death explosivo, sacudindo o Sun Stage em uma cena de pura catarse coletiva.
Mas foi com “Fogo nos racistas” que a plateia veio abaixo. A música virou um verdadeiro hino de resistência, e mais uma vez acendeu o público com sua mensagem direta e necessária. A apresentação ainda contou com faixas como “Seleção natural”, “Ratatatá”, “Mosha”, “Perpétuo”, “Tradução” e “Boto pra fuder”, encerrando com força total.
O Black Pantera não só aqueceu o festival como deixou um recado claro: o metal nacional está mais vivo, consciente e combativo do que nunca.
Setlist:
Candeia
Provérbios
Padrão é o c#ralho
Seleção Natural
Ratatatá
Mosha
Perpétuo
Tradução
A Horda
Sem anistia
Revolução é o caos
Boto pra f#der
Paradise Lost — Gótico em alta voltagem
Se alguém tinha dúvidas sobre o alcance do Paradise Lost, elas evaporaram nos primeiros segundos do show. Com um público que cantava tudo — e com tudo, queremos dizer cada sílaba das letras melancólicas —, a lendária banda britânica transformou o Bangers Open Air numa verdadeira catedral do doom gótico. O vocal de Nick Holmes, soturno e denso, soava ainda mais imponente com uma plateia afinada que parecia ter ensaiado o setlist inteiro em casa.
Durante a apresentação, a banda fez questão de agradecer ao público brasileiro, visivelmente impressionada com a resposta calorosa. “Vocês são insanos!”, soltou Nick, com aquele tom entre irônico e grato que só ele sabe fazer. E estavam mesmo: faixas como “Pity the Sadness” (Shades of God, 1992) e “As I Die” (Shades of God, 1992) foram recebidas com coro forte, mãos erguidas e uma energia que contrastava lindamente com a melancolia sonora.
Musicalmente, o Paradise Lost entregou um show coeso, sombrio e hipnótico — a mistura de riffs pesados com melodias introspectivas criou uma atmosfera quase litúrgica. Momentos como “Enchantment” (Draconian Times, 1995) e “The Last Time” (Draconian Times, 1995) mostraram como a banda sabe equilibrar peso com emoção, mantendo o público preso do início ao fim.
O set ainda passou pelo peso moderno de “Faith Divides Us – Death Unites Us” (Faith Divides Us – Death Unites Us, 2009) e “No Hope in Sight” (The Plague Within, 2015), além de clássicos como “One Second” (One Second, 1997), que fez corações nostálgicos baterem mais forte. A cover de “Smalltown Boy”, do Bronski Beat, foi uma surpresa bem recebida, mostrando o lado mais sensível e ousado do grupo.
Na reta final, faixas como “The Enemy” (In Requiem, 2007) e “Say Just Words” (One Second, 1997) fecharam o set em clima apoteótico — sombrio, catártico, inesquecível. A performance do Paradise Lost provou que, mais do que veteranos, eles são pilares de um gênero que sobrevive porque ainda consegue emocionar com profundidade.
Setlist:
- Enchantment
- Forsaken
- Pity the Sadness
- Faith Divides Us – Death Unites Us
- Eternal
- One Second
- The Enemy+
- As I Die
- Smalltown Boy (cover de Bronski Beat)
- The Last Time
- No Hope in Sight
- Say Just Words
Kerry King — Thrash até a última gota de sangue
Se o palco do Bangers tinha temperatura, Kerry King foi o responsável por elevar tudo ao ponto de fusão. O guitarrista lendário, agora à frente de sua nova banda solo, fez um show que não parecia só uma apresentação, mas sim uma declaração de guerra: uma celebração brutal às raízes mais cruas do thrash metal, com riffs serrilhados, solos em chamas e fãs abrindo rodas de mosh antes mesmo da segunda música.
Abrindo com a potente “Where I Reign”, faixa de seu álbum solo From Hell I Rise (2024), King deixou claro que não está aqui pra brincar. Acompanhado por um time de elite — Mark Osegueda (Death Angel) nos vocais, Phil Demmel (ex-Machine Head, Vio-lence) na guitarra base, Kyle Sanders (Hellyeah) no baixo e Paul Bostaph (ex-Slayer, Testament) destruindo tudo na bateria — o som vinha certeiro como um soco na garganta.
“Rage” e “Trophies of the Tyrant” vieram em sequência, mantendo o nível de agressividade lá no alto. As composições novas têm aquela assinatura King de caos ordenado: estruturas simples, mas cheias de peso, velocidade e fúria. Era quase como se cada música carregasse um pouco da raiva acumulada desde o fim do Slayer.
Quando chegou “Residue”, um dos destaques do álbum, a plateia já estava em transe. “This is how we celebrate the roots of fucking metal!”, bradou Kerry, antes de mergulhar na brutal “Two Fists”, uma pedrada que resume o espírito do novo projeto — direto, sem filtro, sem moderação.
A sequência com “Idle Hands” e “Disciple” (essa última, direto do repertório do Slayer, do álbum God Hates Us All) deixou claro que King sabe dosar passado e presente com maestria. Os fãs veteranos surtaram com cada verso, cada riff inconfundível.
E quando parecia que a coisa ia estabilizar, veio a surpresa: um cover pesadíssimo de “Killers”, do Iron Maiden, resgatando as raízes do metal clássico em versão mais suja, mais rápida, mais violenta. Foi um momento inesperado — e completamente devastador.
“Shrapnel”, faixa inédita com andamento explosivo, serviu de trilha sonora para o caos na pista, preparando o terreno para o bloco final mais que especial: “Raining Blood”, “Black Magic” (ambas do Slayer) e a arrasadora “From Hell I Rise”, que dá nome ao álbum solo e encerrou o massacre com uma energia apocalíptica.
A essa altura, o Bangers Open Air parecia um campo de batalha. Mas era disso que todos ali tinham vindo atrás: um banho de suor, barulho e brutalidade, comandado por um dos arquitetos do thrash moderno. Kerry King pode ter deixado o Slayer para trás, mas seu espírito continua tão feroz quanto nunca. E se alguém ainda tinha dúvidas, esse show cravou de vez: o trono do metal extremo ainda tem dono — e ele empunha uma Flying V como uma espada em chamas.
Setlist:
- Where I Reign
- Rage
- Trophies of the Tyrant
- Residue
- Two Fists
- Idle Hands
- Disciple (música do Slayer)
- Killers (cover do Iron Maiden)
- Shrapnel
- Raining Blood (música do Slayer)
- Black Magic (música do Slayer)
- From Hell I Rise
W.A.S.P. — Clássicos, carisma e Aquiles na bateria
O tempo pode passar, mas a força do W.A.S.P. ao vivo continua intacta. No Bangers Open Air 2025, Blackie Lawless e companhia mostraram por que são lendas do metal oitentista, com um show vibrante, cheio de energia, teatralidade e um setlist que fez os fãs mergulharem de cabeça no passado — sem parecer datado em nenhum momento.
E sim, Blackie estava de pé, desafiando os problemas de coluna que o afastaram de certos formatos de turnê nos últimos anos. Com seu tradicional microfone adornado por ossos, olhos pintados e presença imponente, o vocalista demonstrou estar em ótima forma — tanto vocal quanto cênica. Do início ao fim, dominou o palco como um verdadeiro mestre de cerimônias do caos.
Abrindo o show com “I Wanna Be Somebody”, do icônico W.A.S.P. (1984), a banda já fez o Bangers virar um grande coral. Emendaram logo com “L.O.V.E. Machine”, do mesmo álbum, mantendo a intensidade lá no alto. Mesmo com uma mixagem que deixava a bateria de Aquiles Priester (orgulho brasileiro no line-up) um pouco acima do ideal — abafando levemente os médios em alguns momentos —, a entrega da banda como um todo compensou com sobras.
Mike Duda, no baixo, é pura atitude: movimentando-se com energia incansável, ele parece carregar a vibração punk que sempre fez parte do DNA do grupo. Ao seu lado, Doug Blair comanda as guitarras com técnica e teatralidade, incluindo seu característico braço de guitarra torto, que por si só já chama atenção.
O repertório avançou com a pegada incendiária de “The Flame”, do Inside the Electric Circus (1986), e “B.A.D.”, do subestimado The Crimson Idol (1992), mostrando que a banda também gosta de revisitar álbuns além dos clássicos mais óbvios.
A sequência com “School Daze”, “Hellion” e “Sleeping (in the Fire)” trouxe uma forte dose de nostalgia, com fãs erguendo celulares e vozes num misto de reverência e celebração. O clima sombrio continuou com “On Your Knees” e “Tormentor”, ambas do álbum de estreia, que soaram como uma volta às origens cruas e perigosas do metal americano dos anos 80.
“The Torture Never Stops”, com seus elementos dramáticos e atmosfera quase gótica, preparou o terreno para o cover de “The Real Me”, do The Who — uma escolha inusitada que, apesar de destoar levemente do restante do set, caiu bem na estrutura do show, funcionando como um alívio antes da reta final explosiva.
“Forever Free”, a balada do álbum The Headless Children (1989), começou a ser executada, mas infelizmente foi interrompida antes da conclusão. Ainda assim, os versos iniciais entoados por Lawless bastaram para causar arrepios nos fãs mais antigos.
Na sequência, um trecho de “The Headless Children” apareceu como uma citação sombria, preparando o caminho para a dobradinha matadora: “Wild Child” (do The Last Command, 1985), com seu refrão irresistível, e o encerramento grandioso com “Blind in Texas”, que transformou o Bangers num saloon do metal — braços erguidos, vozes no volume máximo e aquele sentimento de comunhão que só um clássico pode proporcionar.
Visualmente, a banda apostou em cenografia old school: iluminação dramática, atmosfera carregada e uma estética que não faz concessões ao tempo. Não é uma reinvenção — é uma reafirmação. E essa talvez seja a maior força do W.A.S.P. hoje: continuar soando autêntico, sem tentar se atualizar artificialmente.
No final, o que ficou foi a sensação de que, apesar dos pesares e do volume agressivo da bateria, o grupo entregou exatamente o que os fãs queriam: uma viagem furiosa ao coração do metal oitentista. Com Blackie em pé, firme e afiado, e uma banda afiadíssima, o W.A.S.P. mostrou que o velho ainda é ouro — e barulhento.
Setlist:
- I Wanna Be Somebody
- L.O.V.E. Machine
- The Flame
- B.A.D.
- School Daze
- Hellion
- Sleeping (in the Fire)
- On Your Knees
- Tormentor
- The Torture Never Stops
- The Real Me (cover de The Who)
- Forever Free (incompleta)
- The Headless Children (trecho)
- Wild Child
- Blind in Texas
Avantasia encerra o Bangers Open Air 2025 com um espetáculo de fantasia, carisma e vozes históricas
Se o Bangers Open Air 2025 foi pensado como uma celebração do metal em todas as suas formas, o Avantasia tratou de colocar o ponto final com a grandiosidade que o festival merecia. Comandado por Tobias Sammet, o projeto transformou o Memorial da América Latina em um verdadeiro teatro de sonhos pesados, repleto de pirotecnia, convidados lendários e momentos emocionantes.
Logo no início, Tobias já deixou claro que não queria uma plateia passiva. “A única condição pra essa noite funcionar: quando eu disser ‘São Paulo’ ou ‘Brasil’, vocês explodem!”, gritou. E, dali em diante, foi exatamente isso que aconteceu — uma troca constante entre palco e público, com gritos, risadas e uma energia que se manteve firme até o último acorde.
A entrada da vocalista Adrienne Cowan (Seven Spires) logo em “Reach Out for the Light” marcou o começo de uma verdadeira maratona de participações especiais. Cada artista surgia como uma peça bem encaixada de um quebra-cabeça meticulosamente pensado. Tommy Karevik (Kamelot) brilhou na recém-lançada “The Witch”, em sua terceira aparição no festival, enquanto Herbie Langhans soltou os vocais rasgados em “Devil in the Belfry”, sem deixar pedra sobre pedra. Já Eric Martin (Mr. Big) arrancou aplausos ao reviver sua versão de “Dying for an Angel” e depois dividiu os microfones com Ronnie Atkins em “Twisted Mind”, que virou praticamente um dueto com o público, de tão alto que cantaram.
O álbum The Scarecrow foi o grande homenageado da noite, com seis faixas no setlist — destaque para a épica e teatral faixa-título, que por quase 12 minutos hipnotizou o público com sua estrutura cinematográfica, luzes coreografadas e mudanças de clima de tirar o fôlego.
Também houve espaço para o disco mais recente, A Paranormal Evening with the Moonflower Society (com destaque para “Avalon”), mas não sem antes um puxão de orelha bem-humorado de Tobias. “Quando uma banda toca algo novo, fingir empolgação é um ato de amor. Assim a gente continua fazendo música e voltando pra cá!”, brincou, arrancando risos e animando até os mais distraídos.
Visualmente, o show foi um delírio à parte. Fumaça, labaredas, estruturas móveis e toda uma estética gótica cheia de exageros que beiravam o teatral — e ainda assim nunca perdiam o peso. Tobias, com seu jeitão excêntrico, parecia mais um personagem saído de algum universo do Tim Burton, conduzindo tudo com a leveza de quem sabe que está no controle.
O momento mais emocionante? Difícil escolher, mas “Shelter from the Rain”, com Jeff Scott Soto, fez muita gente se arrepiar de verdade. Já perto do fim, “Let the Storm Descend Upon You” foi precedida de mais uma piada sobre o clima paulistano (“tomara que não leve isso ao pé da letra!”), mas São Pedro colaborou — e o céu segurou firme.
No bis, o clássico “Lost in Space” uniu todo mundo em coro, preparando o terreno para o encerramento triunfal: um medley épico de “Sign of the Cross” com “The Seven Angels”, reunindo todos os vocalistas no palco como se fosse um último ato de ópera rock. A plateia respondeu à altura: celulares no alto, abraços espontâneos e aquela sensação coletiva de que algo especial tinha acabado de acontecer.
Mais do que um show, o Avantasia entregou uma experiência. Tobias Sammet não lidera só uma banda: ele comanda uma espécie de universo paralelo onde o metal é emoção pura, contado em capítulos que, felizmente, o Brasil sempre vai querer ouvir de novo.
Setlist:
Creepshow
Reach Out for the Light (com Adrienne Cowan)
The Witch (com Tommy Karevik)
Devil in the Belfry (com Herbie Langhans)
Dying for an Angel (com Eric Martin)
Twisted Mind (com Eric Martin e Ronnie Atkins)
Avalon (com Adrienne Cowan)
The Scarecrow (com Ronnie Atkins)
The Toy Master
Shelter from the Rain (com Jeff Scott Soto)
Farewell (com Chiara Tricarico)
Let the Storm Descend Upon You (com Herbie Langhans e Ronnie Atkins)
Death is Just a Feeling
Bis:
Lost in Space
Sign of the Cross / The Seven Angels (todos os músicos convidados no palco)
