Hurricanes abre último dia do Best of Blues and Rock com pegada setentista e muita presença de palco
O último dia do Best of Blues and Rock, no Parque Ibirapuera, começou com um susto bom — daqueles que fazem o público dar uma olhada pro lado e soltar um “essa banda é BR?”. Sim, a Hurricanes, responsável por abrir os trabalhos no domingo, é brasileira. E não só é brasileira, como tem tudo a ver com o espírito do festival.
Com um som que mergulha direto nos anos 70, cheio de riffs marcantes e solos bem encaixados, a banda chegou já com uma vibe retrô que combinou demais com o clima do evento. A galera que colou mais perto do palco no início talvez tenha sentido um certo estranhamento no som — algo meio embolado —, mas felizmente isso foi se ajustando com o passar das músicas. E quando engrenou, engrenou bonito.
A presença de palco da banda chamou atenção: segura, cheia de energia e com backing vocals afinados que ajudaram a construir aquele climão vintage que muita gente busca num festival como esse. O público, que no começo parecia estar só “observando”, foi se soltando e entrando no clima. Os solos longos e cheios de sentimento foram um ponto alto, assim como a sintonia geral entre os músicos.
Um dos momentos mais marcantes, pelo menos pra mim, foi quando eles mandaram um trecho de “No Quarter”, do Led Zeppelin — aquele tipo de homenagem que pega em cheio quem cresceu ouvindo os clássicos. A interpretação foi de arrepiar, e trouxe ainda mais força pra identidade 70’s que a Hurricanes sustenta com tanta naturalidade.
E pra completar, o telão do Ibirapuera à noite deu aquele toque final que só São Paulo sabe proporcionar — luzes bem dosadas, céu escuro contrastando com as imagens no painel, criando o tipo de cenário que transforma um show em experiência.
Se a ideia do festival é celebrar o melhor do blues e do rock, a Hurricanes mostrou que a cena nacional também tem cartas fortes nesse baralho.
Setlist:
- Penny In My Pocket
- Over The Moon
- Waiting
- Come To The River
- Weary Hearted Blues
- The Bird’s Gone
- Flowers
- Devil’s Deal
- Thunder in the Storm
- Through The Lights
- With a little help from my friends (The Beatles cover)
Judith Hill encanta no palco com potência vocal, banda afiada e presença de família
Logo nos primeiros segundos do show, Judith Hill já mostrou que não estava ali pra passar despercebida. A apresentação começou com um trecho poderoso de “Feeling Good”, eternizada por Nina Simone — e bastou isso pra conquistar o público de cara. Um clássico daqueles, entregue com personalidade e emoção, já dava a dica do que viria pela frente.
E daí em diante foi só ladeira acima. Ela abriu oficialmente com “I Can Only Love You by Fire”, do disco Baby, I’m Hollywood! (2021), já com aquela mistura de soul, funk e uma entrega vocal de tirar o fôlego. Em seguida, fez uma releitura de “Fire”, hit dos Ohio Players lançado em 1974 — uma homenagem à velha escola, mas com roupagem totalmente nova e cheia de identidade.
Logo no comecinho do set, Judith apresentou sua banda. E aí veio a surpresa da noite: no baixo, ninguém menos que seu pai, Robert “Pewee” Hill; nos teclados, sua mãe, Michiko Hill. Uma formação pra lá de especial, completada pelo monstro da bateria Shadrack “Shaddy” Oppong — que, com todo respeito, roubou a cena em vários momentos. O cara toca com uma mistura de precisão e intensidade que prende o olhar. Brabo demais.
A sequência seguiu com a envolvente “Gypsy Lover” e a vibrante “Runaway Train”, ambas do álbum Golden Child (2018). A banda estava num groove perfeito, cada músico com espaço pra brilhar, mas sempre a serviço do coletivo. A sintonia entre eles dava pra sentir de longe — parecia até jam session de família, só que com nível técnico altíssimo.
Na parte mais intensa do show, vieram faixas como “Burn It All”, “Dame De La Lumière”, “Flame” e “You Got It Kid” — todas do álbum Baby, I’m Hollywood!. Essas músicas são um retrato fiel da Judith atual: visceral, política, espirituosa e teatral. Ela brinca com o palco como quem conta histórias através da voz e do corpo. Cada interpretação era quase uma performance cênica.
Também teve espaço pro repertório mais antigo: “Give Your Love to Someone Else” e “Cry, Cry, Cry”, ambas do disco Back in Time (2015), produzido em parceria com Prince. O peso emocional dessas canções é palpável. A forma como ela segura as notas, alternando entre fragilidade e força, é de arrepiar.
No fim das contas, foi um daqueles shows que deixam um sorriso no rosto e a sensação de ter visto algo realmente especial. Quando talento, emoção e afeto se misturam no palco, o resultado é esse: inesquecível. E se existe um lugar em que o fogo da alma e o calor da música se encontram, Judith Hill definitivamente acendeu esse espaço — e deixou em chamas.
Setlist — Judith Hill no Best of Blues and Rock, 2025
- I Can Only Love You by Fire (2021) — Baby, I’m Hollywood!
- Fire (Ohio Players cover) (original de 1974, álbum: Fire)
- Gypsy Lover (2018) — Golden Child
- Runaway Train (2018) — Golden Child
- Burn It All (2021) — Baby, I’m Hollywood!
- Give Your Love to Someone Else (2015) — Back in Time
- Dame De La Lumière (2021) — Baby, I’m Hollywood!
- Flame (2021) — Baby, I’m Hollywood!
- You Got It Kid (2021) — Baby, I’m Hollywood!
- Cry, Cry, Cry (2015) — Back in Time
Fotos: Raíssa Correa – @showww360
Deep Purple retorna a São Paulo com fôlego renovado e clássico atrás de clássico
Mesmo com décadas de estrada, o Deep Purple continua provando por que é uma das maiores instituições do rock. Na volta a São Paulo, a banda mostrou que idade nenhuma atrapalha quem sabe exatamente o que está fazendo — e que ainda se diverte fazendo isso. O sorriso no rosto dos integrantes entre uma música e outra, os agradecimentos frequentes e até pequenas brincadeiras no palco foram parte do charme de um show que equilibra peso, nostalgia e carinho pelo público.
“É muito bom estar de volta em São Paulo! Vocês têm uma energia incrível!”, disse o vocalista Ian Gillan logo no início, deixando clara a conexão entre banda e plateia, que já se estabeleceu ali, sem esforço. E o que veio depois foi uma sequência impecável de clássicos, boas surpresas e homenagens emocionantes.
Abriram com “Highway Star”, o tipo de música que não precisa de introdução — um petardo direto que já levanta qualquer multidão. Emendaram com “A Bit on the Side” e “Hard Lovin’ Man”, mantendo o clima acelerado nos primeiros momentos da apresentação. Quando a banda puxou “Into the Fire”, dava pra sentir que o repertório ainda carrega toda a força dos anos 70, com pegada e frescor surpreendentes.
Entre essas, rolou o primeiro grande momento solo da noite: Simon McBride, atual guitarrista da formação, mostrou a que veio com uma performance inspirada, cheia de personalidade. Já na sequência, veio uma das partes mais emocionantes do show: “Uncommon Man”, dedicada ao eterno Jon Lord. Gillan reforçou o tributo antes da música começar, e foi impossível não sentir o peso da ausência e, ao mesmo tempo, a beleza da homenagem.
A sequência seguiu com a divertida “Lazy Sod” e, em seguida, “Lazy”, essa com uma introdução estendida no teclado que deu espaço para Don Airey brilhar com seus improvisos e timbres nostálgicos. “When a Blind Man Cries” veio com aquele tom mais contemplativo, enquanto “Anya” trouxe de volta o clima épico, com guitarras e teclados em total sintonia.
O solo de teclado de Airey veio logo depois, mostrando que o Deep Purple continua sendo uma banda onde cada integrante tem seu momento — e entrega. “Bleeding Obvious”, uma faixa mais recente, manteve o pique e abriu caminho para dois clássicos que praticamente funcionam como hino: “Space Truckin’” e “Smoke on the Water“, essa última cantada a plenos pulmões pelo público, como sempre.
No bis, a novidade do setlist apareceu: “Green Onions”, instrumental imortalizado por Booker T. & the MG’s, trouxe uma vibe bluesy e dançante que funcionou como respiro antes da última pancada dupla. A banda fechou com “Hush” (original de Joe South, mas eternizada pelo Purple desde os anos 60) e “Black Night”, que selou a noite com energia nas alturas.
Destaque também para a voz de Ian Gillan, que soou visivelmente melhor do que na última passagem por São Paulo — mais firme, mais controlada e com boa entrega nas partes mais exigentes. O Deep Purple pode ter passado dos 50 anos de carreira, mas continua com o público na mão e um repertório que envelhece como vinho. Eles ainda estão se divertindo no palco — e a gente também.
Setlist — Deep Purple em São Paulo, 2025
- Highway Star
- A Bit on the Side
- Hard Lovin’ Man
- Into the Fire
- Uncommon Man (dedicada a Jon Lord)
- Lazy Sod
- Lazy (com introdução estendida no teclado)
- When a Blind Man Cries
- Anya
- Bleeding Obvious
- Space Truckin’
- Smoke on the Water
- Green Onions (Booker T. & the MG’s cover)
- Hush (Joe South cover)
- Black Night
