O terceiro dia do Best of Blues and Rock 2025 foi daqueles que vai ficar na memória de quem esteve lá. Começou com Marcão Britto e Thiago Castanho mandando ver nos clássicos do Charlie Brown Jr., num show cheio de energia e emoção — dava pra sentir a galera conectada em cada refrão. Depois, o Black Pantera chegou com tudo, pesado e direto, levantando a plateia com uma presença de palco absurda. E pra fechar com chave de ouro, Alice Cooper trouxe um espetáculo cheio de teatralidade, som afiado e aquela pegada clássica que mostra por que ele é uma lenda. Foi um dia intenso, com shows que falaram direto com o coração (e os ouvidos) de quem ama rock de verdade.
Tributo ao Charlie Brown Jr. — Energia, nostalgia e união no terceiro dia de festival
Se tem uma coisa que une gerações, é a música do Charlie Brown Jr. E foi exatamente essa conexão que se viu na abertura do terceiro dia de festival, com um tributo pra lá de animado comandado pelos ex-integrantes Marcão Britto e Thiago Castanho. A missão? Honrar o legado da banda que marcou não só o rock nacional, como também a vida de quem cresceu ouvindo suas músicas na trilha sonora de Malhação, nos rolês de skate e nos fones de ouvido da vida.
Logo de cara, o público já foi à loucura com “Papo Reto”, clássico do álbum Nadando com os Tubarões (2000), que colocou a galera pra pular e cantar em coro. E se alguém achou que o gás ia diminuir, se enganou: “Tudo Que Ela Gosta de Escutar”, do Preço Curto… Prazo Longo (1999), veio na sequência mantendo a vibe lá no alto.
O show seguiu intercalando momentos de pura celebração com aquele sentimento agridoce de saudade. Quando rolou “Me Encontra”, do Ritmo, Ritual e Responsa (2007) — sim, outro hit que embala até hoje as playlists nostálgicas e que também figurou em temporadas de Malhação —, era difícil achar alguém que não estivesse cantando a plenos pulmões.
E teve espaço também para aquelas que tocam fundo na alma. “Pontes Indestrutíveis”, do álbum homônimo de 2005, trouxe uma das partes mais emocionantes da apresentação, seguida pela leveza de “Céu Azul”, do disco solo de Chorão, que ganhou interpretação de Thiago Castanho no vocal, levando muitos do público a cantar junto com o músico.
Claro que o clima rock’n’roll voltou com força em “Hoje Eu Acordei Feliz”, faixa do Bocas Ordinárias (2002), e na emblemática “Lutar Pelo Que É Meu”, do Acústico MTV (2003), que ficou eternizada justamente como tema de abertura de Malhação lá em 2002, reforçando aquele gostinho de nostalgia que pairava no ar.
E se falar em nostalgia, é impossível não lembrar de “Te Levar”, também do Acústico MTV, outro hino absoluto das trilhas de Malhação, que fez todo mundo abrir aquele sorriso automático, do tipo que surge quando uma memória boa invade a mente.
O repertório seguiu com peso em “Zoio de Lula”, do disco Preço Curto… Prazo Longo (1999), e momentos bem especiais, como quando Marcão assumiu os vocais em “Como Tudo Deve Ser”, do Nadando com os Tubarões, e em “Só Por Uma Noite”, do 100% Charlie Brown Jr. – Abalando a Sua Fábrica (2001), dois clássicos que seguem atuais e poderosos.
Ainda teve espaço para uma versão de “So Far Away”, do Dire Straits, mostrando a versatilidade dos músicos, antes de voltarem com mais peso e união em “Tamo Aí na Atividade”, faixa do disco homônimo de 2004, com direito a Rafael (vocalista da banda de apoio) dividindo os vocais com Marcão.
E como não poderia faltar, o momento de coro absoluto veio com “Só os Loucos Sabem”, do Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva (2009), com Thiago novamente no vocal, e o encerramento não poderia ser outro: “Proibida Pra Mim”, do álbum Transpiração Contínua Prolongada (1997), aquela música que, mesmo depois de décadas, ainda faz todo mundo cantar como se fosse a primeira vez.
Apesar de alguns deslizes técnicos ao longo da apresentação — coisa que acontece e não comprometeu em nada —, a vibe foi contagiante. Marcão e Thiago estavam visivelmente felizes, curtindo cada segundo no palco e interagindo muito com a plateia, que retribuiu com uma energia absurda do início ao fim.
O que ficou claro é que o legado do Charlie Brown Jr. segue vivo, pulsante e presente. E que a trilha da vida de muita gente, que começou lá nos episódios de Malhação, ainda ecoa forte. Porque, no fim das contas, como eles mesmos disseram um dia: “Só os loucos sabem”.
Setlist:
- Papo Reto
- Tudo que ela gosta de escutar
- Me encontra
- Pontes indestrutíveis
- Céu azul (Thiago no vocal)
- Hoje eu acordei feliz
- Lutar pelo que é meu
- Te levar
- Zoio de lula
- Como tudo deve ser (Marcão no vocal)
- Só por uma noite (Marcão no vocal)
- So far away
- Tamo aí na atividade (Rafael e Marcão no vocal)
- Só os loucos sabem (Thiago no vocal)
- Proibida pra mim
Fotos: Raíssa Correa – @showww360
Black Pantera — Peso, resistência e representatividade no palco
O terceiro dia de festival também foi marcado por um show que, sem exagero, já pode ser considerado histórico. O Black Pantera, banda que carrega 11 anos de trajetória na luta e no peso, mostrou que seu som, sua mensagem e sua presença de palco chegaram, sim, a outro patamar.
O início teve aquele perrengue clássico de festival: som meio baixo, principalmente na linha de frente, mas que, felizmente, foi se ajeitando ao longo da apresentação. E isso não foi problema pra banda nem pra galera, que abraçou a proposta desde a primeira nota. “Comemos muita poeira pra estarmos aqui”, mandou o baixista Chaene da Gama, refletindo não só sobre as condições do local, mas também sobre toda a caminhada da banda até chegar nesse palco. Aliás, ele ainda soltou uma curiosidade divertida: já teve uma banda cover de Charlie Brown Jr. junto com Pancho, baterista do Pantera.
O show foi uma sucessão de riffs pesados, discursos necessários e aquele mosh nervoso que só eles sabem provocar. “Candeia” e “Provérbios” abriram os trabalhos, colocando o público no clima, seguidas de “Padrão é o Car#lho”, que carrega no próprio nome o espírito questionador da banda.
Na sequência, o pancadão de “Mosha”, “Seleção Natural” e “Perpétuo” elevou ainda mais a temperatura — e não só no sentido figurado, porque o calor humano era real.
E se o Black Pantera já é conhecido por momentos emblemáticos nos shows, aqui não foi diferente. “Fogo nos Racistas”, talvez a faixa mais emblemática da carreira deles, veio acompanhada daquele ritual que já virou tradição: o vocalista Charles Gama chama todo mundo pra se abaixar, cria aquele silêncio tenso, e, no comando dele, a explosão — todo mundo pula ao mesmo tempo, no melhor estilo Slipknot em “Spit It Out”, pra quem conhece a referência.
Outro momento que já se tornou padrão nos shows da banda foi quando rolou “Só as Mina”, e o chamado foi claro: o mosh da música seria exclusivamente com mulheres no centro. E não deu outra — espaço aberto, as minas dominando a roda, e o festival inteiro assistindo, vibrando e apoiando. Uma cena forte, simbólica e poderosa, que mostra como representatividade no rock não é favor, é urgência.
Na reta final, eles seguiram despejando peso com “Unfuck This”, “Dreadpool” e “Revolução é o Caos”, até fecharem com “Boto Pra F#der”, que carrega o espírito do que é o Black Pantera: resistência, atitude e som pesado na veia.
Ver o Black Pantera chegar onde está hoje é mais do que motivo de orgulho. É a prova de que a cena cresce, se fortalece e se transforma quando abre espaço pra vozes que sempre estiveram ali, mas que por muito tempo foram ignoradas. E a mensagem foi dada, bem clara, bem alta — e, principalmente, bem pesada.
Setlist:
- Candeia
- Provérbios
- Padrão é o car#lho
- Mosha
- Seleção Natural
- Perpétuo
- Fogo nos racistas
- Tradução
- F#deu
- Só as mina
- Unfuck this
- Dreadpool
- Revolução é o caos
- Boto pra f#der
Fotos: Raíssa Correa – @showww360
Alice Cooper — Uma Lenda Viva no Best of Blues and Rock 2025
Se tem algo que o tempo não consegue derrubar, é o mestre do terror no rock. Aos 77 anos, Alice Cooper mostrou no palco do Best of Blues and Rock 2025 que idade é apenas um número. Foram dez anos de espera desde sua última passagem pelo Brasil, mas quem esteve presente pode testemunhar que o showman continua tão afiado, teatral e insano quanto sempre foi.
Logo de cara, as cortinas se fecharam, revelando a frase provocativa “Banned in Brazil! Alice Cooper”. Na sequência, a icônica silhueta do mestre do horror apareceu, levando o público ao delírio enquanto os acordes de “Welcome to the Show” (do álbum Road, de 2023) explodiam nas caixas.
Sem tempo para respirar, Alice engatou “No More Mr. Nice Guy” (Billion Dollar Babies, 1973) e “I’m Eighteen” (Love It to Death, 1971) — essa com direito ao frontman desfilando com uma bengala em punhos, mostrando que a irreverência continua intacta. O clima seguiu acelerado com “Under My Wheels” (Killer, 1971) e a pegajosa “Bed of Nails” (Trash, 1989).
O desfile de clássicos seguiu com “Billion Dollar Babies” (Billion Dollar Babies, 1973) e “Snakebite” (The Eyes of Alice Cooper, 2003), além da queridinha dos fãs “Be My Lover” (Killer, 1971) e a sarcástica “Lost in America” (The Last Temptation, 1994).
O lado mais teatral do show ganhou destaque com “He’s Back (The Man Behind the Mask)” (Constrictor, 1986), quando ninguém menos que Jason Voorhees invadiu o palco e “assassinou” uma fã descontrolada que fingia invadir a apresentação — puro cinema em plena luz do dia! A sequência trouxe mais humor ácido em “Hey Stoopid” (Hey Stoopid, 1991), quando Alice empalou um ator vestido de fotógrafo sem noção.
Após essa sequência de caos, Glen Sobel tomou conta do palco e deu um verdadeiro espetáculo no solo de bateria, mostrando por que é considerado um dos grandes nomes do instrumento na atualidade.
Na sequência, voltamos ao pesadelo com “Welcome to My Nightmare” (Welcome to My Nightmare, 1975), seguida pela mórbida “Cold Ethyl” (Welcome to My Nightmare, 1975) e pela pesada “Go to Hell” (Goes to Hell, 1976).
Quando os riffs de “Poison” (Trash, 1989) surgiram, o Best of Blues simplesmente veio abaixo. Foi o ponto de comunhão máxima entre palco e plateia. E se alguém ainda tinha dúvidas sobre o poder dessa banda, Nita Strauss veio para enterrar qualquer questionamento. A guitarrista, que segundo Alice “foi impossível não contratar quando a viu tocando”, simplesmente destruiu no seu solo — carisma, técnica e uma presença magnética.
O instrumental “Black Widow Jam” serviu como vitrine para a competência absurda de toda a banda, que equilibra com maestria teatralidade, peso e virtuosismo.
O ápice dramático veio com “Ballad of Dwight Fry” (Love It to Death, 1971). Com a clássica roupa de manicômio, Alice foi levado até a famosa guilhotina em um dos momentos mais icônicos de seus shows. A sequência macabra continuou com a instrumental “Killer” (Killer, 1971) e a mórbida “I Love the Dead” (Billion Dollar Babies, 1973).
Mas como todo pesadelo também tem seu lado divertido, “School’s Out” (School’s Out, 1972) transformou o festival numa verdadeira festa: balões gigantes lançados ao público, riffs misturados com trechos de “Another Brick in the Wall” (Pink Floyd) e a apresentação oficial da banda. Energia lá no teto!
Para o bis, “Feed My Frankenstein” (Hey Stoopid, 1991) coroou uma noite que provou, mais uma vez, que Alice Cooper não é apenas um músico — é uma entidade do rock.
Mesmo aos 77 anos, ele troca de figurino várias vezes, se move o tempo todo no palco, interage com a banda e com o público, e entrega uma performance que muitos artistas bem mais jovens jamais conseguiram chegar perto.
Alice é eterno.
Setlist:
1. Lock Me Up (trecho)
2. Welcome to the Show
3. No More Mr. Nice Guy
4. I’m Eighteen
5. Under My Wheels
6. Bed of Nails
7. Billion Dollar Babies
8. Snakebite
9. Be My Lover
10. Lost in America
11. He’s Back (The Man Behind the Mask)
12. Hey Stoopid
13. Solo de bateria de Glen Sobel
14. Welcome to My Nightmare
15. Cold Ethyl
16. Go to Hell
17. Poison
18. Solo de guitarra de Nita Strauss
19. Black Widow Jam (só a banda)
20. Ballad of Dwight Fry
21. Killer (só a banda)
22. I Love the Dead
23. School’s Out
24. Feed My Frankenstein
Fotos: Raíssa Correa – @showww360
